A leitura é preponderante para fortalecer minha relação com a escrita e alimentar minha paixão por escrever.

4 livros indispensáveis para todas as pessoas que produzem conteúdo

Uma das regras básicas para quem produz conteúdo é o hábito da leitura. Ler textos de variados autores, diferentes estilos e diversos formatos contribui para enriquecer o vocabulário, conhecer novas visões de mundo, descobrir estilos de escrita (o que pode te ajudar a encontrar o seu, como eu pontuo neste post aqui) e buscar insights para os seus próprios textos.

Eu sempre fui uma leitora intensa, daquelas que devoram um livro em uma sentada e leem cinco, seis ou mais livros por mês (essa é só uma referência, porque leitura, definitivamente, não é uma disputa — cada um tem seu ritmo). Não tenho dúvida que esse hábito foi preponderante para fortalecer a minha relação com a escrita e por alimentar a minha paixão por escrever.

Mas, devo confessar uma coisa: eu sempre tive muita preguiça de livros técnicos. Mesmo querendo aprender mais sobre produção de conteúdo, obter umas dicas para uma escrita efetiva e aprender técnicas para aprimorar meus textos, eu resisti bravamente aos livros que tinham a escrita como tema. Provavelmente, porque eu acreditava que livros assim seriam apenas obras em que o autor tentaria empurrar o seu jeito de escrever para os leitores — não sei se estou de toda errada, porque posso apostar que existem livros assim por aí!!

Eu já falei por aqui que não acredito em técnicas de escrita. Cada um tem o seu jeito de fazer um texto acontecer e técnicas são padrões aos quais tentam nos encaixar e que, muitas vezes, não nos cabem. Essa crença é, sem dúvida, um dos motivos que contribuem para a minha resistência em relação a livros que têm a escrita como tema, mas devo confessar que essa realidade mudou. Foi somente no ano passado que eu consegui romper esse preconceito e incluir livros sobre escrita na minha lista de leituras. E, como você vai ver mais adiante, eu não poderia ter feito uma escolha melhor!

Abaixo, compartilho quatro livros que li em 2019 e que me provaram que, mesmo falando sobre escrita, um autor pode escrever um livro inteiro sem mencionar uma técnica sequer. Espero que goste da lista! Acredite: todas as pessoas que produzem conteúdo deveriam apreciar essas obras.

1 — Como se encontrar na escrita

Quem já me viu falar qualquer coisa sobre escrita sabe que Ana Holanda é, hoje, minha principal referência e fonte de inspiração. Diretora de Conteúdo na Editora Vida Simples, Ana foi a criadora do conceito de “escrita afetuosa” e é uma das grandes defensoras da ideia de que técnicas limitam o processo de escrita e representam uma parte quase irrelevante do que você precisa saber para saber escrever.

A única “técnica de escrita” que Ana Holanda apresenta nesta obra é o convite que ela nos faz para enxergar o mundo com outros olhos. Sem que eu ainda tivesse muita clareza do que o processo de escrita significava pra mim — eu comecei a pensar nisso de forma mais estruturada de um ano pra cá, antes eu só escrevia e pronto — , eu cumpri com louvor o título do livro e realmente tive um lindo encontro comigo mesma depois da leitura dele. A autora desmistifica a ideia de que a gente não tem nada de relevante para dizer ao mundo e defende que qualquer pessoa pode escrever sobre qualquer assunto.

“Como se encontrar na escrita” realmente me impactou muito e me fez enxergar a importância desse processo de produzir textos por meio do jeito leve, simples e profundo da Ana colocar suas ideias no papel. No livro, a autora fala sobre pessoas, sobre histórias e sobre a vida! Fala sobre nós e nos faz repensar como estamos lidando com a forma que a gente enxerga as histórias que acontecem o tempo todo ao nosso redor. E, sinceramente, a forma como a gente enxerga o que acontece ao nosso redor diz muito sobre o nosso jeito de colocar as palavras no papel.

O jornalista e escritor Márcio Vassalo é autor do prefácio do livro de Ana e resume com muita delicadeza e completude o que a obra representa. “Como se encontrar na escrita nos abre o apetite para olharmos e experimentarmos o que há de mais extraordinário, autêntico e humano em tudo o que é aparentemente banal, ordinário, sem importância. O livro da Ana é um abridor de acolhimentos, um convite à inteireza, um tirador de anestesia para quem deseja ver, sentir, viver e escrever com entrega, originalidade, abertura, disponibilidade, amor por janelas sem telas, sem grades, sem nada que nos obstrua o olho nem nos roube horizontes. Em seu livro com vista para a delicadeza, Ana diz que existe um lugar dentro de cada um onde a escrita nasce; lembra que a gente se encontra e se reconhece pela palavra, e indaga: “De que adianta escrever para o outro sem se revelar, sem se descobrir?””

Não sei você, mas eu, só de ler esse pequeno trecho do prefácio, sairia correndo para adquirir o livro. Não posso deixar de mencionar que o encontro comigo mesma estimulado por esse livro incrível foi tão profundo que me fez executar uma ideia que navegava na minha mente há muito tempo e criar, pela primeira vez, um projeto pessoal para a publicação de alguns textos. Assim, nasceu o @euvejoumahistoria, que é o meu jeito de compartilhar com o mundo como eu vejo as coisas que acontecem ao meu redor. Eu falo mais sobre o nascimento desse projeto e sobre esse meu encontro comigo mesma por meio da escrita no post que inaugurou o meu perfil aqui.

2 — Sobre a escrita

A grandiosidade de Stephen King é indiscutível para qualquer pessoa que entenda minimamente de literatura e, caso você ainda não tenha lido nenhum livro do autor, aqui vão alguns números para provar por que ele é um dos autores mais bem-sucedidos de todos os tempos: conta com mais de 60 livros publicados, já vendeu mais de 400 milhões de cópia, suas obras estão presentes em mais de 40 países e ele é, hoje, o nono autor mais traduzido do mundo.

Consagrado por suas obras de ficção, como “It: a coisa”, “À espera de um milagre” e “Saco de Ossos”, o autor norte-americano nos presenteou com “Sobre a escrita”, essa obra autobiográfica, indispensável para quem produz conteúdo ou tem uma relação mais próxima com a escrita. Em 256 páginas, Stephen King descreve o processo de produção dos seus textos, passando, inclusive, por temas bastante pesados, como sua relação com o alcoolismo e os efeitos dele em sua vida. Mas, por mais caótico e triste que seja, no processo dele é possível enxergar, claramente, a genialidade do autor e buscar insights que podem nos ajudar na busca pela nossa capacidade de produzir um bom texto.

O livro conta a história do autor sob o ponto de vista da escrita, mostrando como essa arte trouxe impactos profundos para sua vida. Em “Sobre a escrita”, Stephen King passa por algumas técnicas, mas, muito mais do que isso, mostra as influências que contribuem para o seu processo de escrita, compartilha as memórias que fizeram ele ser quem é e dá insights sobre o processo criativo pelo qual passa para transformar uma ideia que, inicialmente pode parecer sem sentido, em um livro genial.

Essa obra incrível de Stephen King me marcou por muitos motivos e o principal deles está envolvido em um dos trechos do livro que mais me impactaram: “A escrita não é a vida, mas acho que, algumas vezes, pode ser um caminho de volta a ela”. Essa citação diz muito sobre o que livro de Stephen King significou para mim. Em 2019, por diversos motivos, a escrita assumiu um papel de destaque na minha vida, me fazendo, de fato, trilhar um caminho (não sei se de ida ou de volta) em direção à minha essência. Assim como para o autor, escrever, para mim, está longe de ser um trabalho. É, na verdade, um combustível para sobreviver!

3 — Do que eu falo quando eu falo de corrida

Ouvi falar pela primeira vez deste livro durante o curso de “Escrita Criativa e Afetuosa”, ministrado pela Ana Holanda em Belo Horizonte, em agosto do ano passado. Como Haruki Murakami, um dos autores mais importantes da literatura japonesa atualmente, chegou até mim por meio da indicação de um amigo muito especial e eu já havia provado da literatura dele com o primeiro volume da trilogia 1Q84 (incrível, por sinal!), não tive dúvidas de que “Do que eu falo quando eu falo de corrida” precisava entrar na minha lista de leituras. Sim, é sobre corridas que o autor fala no livro, mas também é sobre a escrita e, acima de tudo, sobre a vida!

Com um jeito gostoso de escrever e uma linha de raciocínio que faz todo sentido na minha cabeça, Murakami conta como virou maratonista (ele corre, pelo menos, uma maratona por ano há 38 anos) e como isso tem a ver com o processo pelo qual passou para se transformar em um escritor. Para mim, o livro foi profundamente reconfortante e inspirador, porque nele a gente tem a chance de descobrir que Haruki Murakami é o que é especialmente porque decidiu ser — ele quis ser maratonista e virou um; ele quis ser romancista e virou um. Não tenho dúvidas que as pessoas não têm oportunidades iguais, mas acredito fortemente que, do ponto de vista da escrita, o processo está nas mãos de cada um.

Vale ressaltar que Murakami tem um livro dedicado à arte da escrita: “Romancista como vocação”, lançado em 2017 e que, confesso, ainda não conseguiu sair da lista dos livros que eu tenho para ler. De toda forma, acho que vale muito a pena começar por “Do que eu falo quando eu falo de corrida, porque muito mais do que maratonas e o processo de escrever, a vida e suas nuances é o pilar que sustenta a obra do japonês. E é exatamente isso que me faz gostar tanto desse livro, que reforça uma crença que eu defendo com unhas e dentes quando se trata de produção de conteúdo: vida e escrita caminham lado a lado, de forma inseparável, num trajeto que não sabemos quando e onde termina.

Se você ainda não se convenceu como um livro sobre corrida pode falar tanto sobre escrita, dá uma olhada neste trecho:

“Algumas pessoas podem ralar como burros de carga e nunca atingir seus objetivos, enquanto outras os conquistam sem um mínimo esforço. Mas quando penso a respeito, ter o tipo de corpo que ganha peso facilmente talvez seja uma bênção disfarçada. Em outras palavras, se não quero engordar, tenho de dar duro todo dia, prestar atenção no que como e cortar as extravagâncias. (…) Acho que esse ponto de vista se aplica também ao trabalho do romancista. Escritores que nascem com um talento natural podem escrever romances à vontade, independentemente do que façam — ou não façam. (…) Ocasionalmente, você encontra gente assim, mas, infelizmente, eu não me incluo nessa categoria. (…) Para escrever um romance, tenho de exigir muito de mim, fisicamente, e despender um bocado de tempo e esforço. Toda vez que começo um romance novo, sou obrigado a escavar um novo buraco profundo. Mas como tenho mantido esse estilo de vida por muitos anos, tornei-me bastante eficiente, tanto técnica como fisicamente. (…) Assim, tão logo noto uma fonte de água secando, posso mudar imediatamente para outra. Se uma pessoa que se apoia em uma nascente natural de talento de repente descobre que exauriu sua única fonte, ela se vê encrencada”.

Esse trecho, assim como todo o restante do livro do Murakami, deixa um recado bastante claro. Todas as vezes que você pensa que alguém escreve melhor do que você porque nasceu com o dom da escrita, você está sabotando seu processo. Ter que trabalhar duro para buscar suas fontes de inspiração e aprender as técnicas que fazem o seu texto acontecer do jeito que faça mais sentido para você é o melhor caminho para ser bem-sucedido na escrita.

4 — A coragem de ser imperfeito

Por último, e não menos importante, eu preciso falar de Brené Brown. Assim como Ana Holanda, Brené teve um papel fundamental no meu encontro comigo mesma por meio da escrita, mesmo que ela nunca tenha falado especificamente sobre isso. “Como assim você está incluindo um livro que não fala sobre a escrita em uma lista de livros indispensáveis para todas as pessoas que produzem conteúdo?”, você pode estar se perguntando.

Eu falei neste post aqui sobre a insegurança de quem escreve e não tenho dúvida de que este sentimento é muito presente na vida da maior parte das pessoas que produzem conteúdo. E é por isso que “A coragem de ser imperfeito” é uma leitura indispensável para quem vive ou pretende viver o processo de escrita. No livro, a pesquisadora Brené Brown fala sobre vulnerabilidade e a importância de sabermos lidar com ela para nos livrarmos das amarras que nos impede de ser quem somos.

Famosa por sua palestra “O poder da vulnerabilidade”, no TED Talks de Houston, que já tem mais de 48 milhões de visualizações no site do TED, e por sua apresentação “The call to courage” disponível na Netflix desde o ano passado, Brené Brown é uma estudiosa das relações humanas. Abordando com leveza e delicadeza temas complexos como vergonha e medo, Brené nos conduz, por meio de “A coragem de ser imperfeito”, para um mergulho dentro de nós mesmos, que nos faz refletir sobre que o estamos fazendo com a gente, com os outros e com o mundo.

Além de falar com maestria sobre insegurança — que é o que, muitas vezes, nos impede de vivermos intensamente o processo de escrita — , a pesquisadora da Universidade de Houston aborda um ponto que, para mim, é o pilar que sustenta um texto autêntico: as conexões humanas. Sobre isso, Brené escreve: “estamos aqui para criar vínculos com as pessoas. Fomos concebidos para nos conectar uns com os outros. Esse contato é o que dá propósito e sentido à nossa vida e, sem ele, sofremos”.

Eu acredito fortemente que, além de dar sentido à nossa vida, a nossa forma de nos conectarmos ao mundo e aos outros é o que dá sentido a um texto que produzimos e é por isso que “A coragem de ser imperfeito” é uma das recomendações mais importantes desta lista. Se você ainda não leu, tome isso como uma verdade indiscutível: você PRECISA conhecer Brené Brown!

Bom, minha lista termina por aqui e sei que ela já é suficiente para garantir leitura para os próximos meses. Quero deixar claro que, apesar de não gostar deles, livros sobre técnicas de escrita podem ser importantes para o seu processo e minha intenção aqui não é te desestimular a lê-los. O que quero deixar claro é que o processo de escrita vai muito além de técnicas e que ampliar sua visão de mundo é a medida mais importante para garantir a qualidade do seu texto e uma fonte inesgotável de inspiração!

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Jornalista de formação, acredito que a comunicação, muito mais do que prospectar clientes e fortalecer uma marca, tem poder de transformar a vida das pessoas.

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Rafa Baião

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