Como me realizei profissionalmente, mesmo não sendo o que eu queria ser quando crescesse

“O que você quer ser quando crescer”? Assim como todo mundo, eu respondi a essa pergunta muitas vezes durante a minha infância e a minha adolescência. E, a não ser que a minha memória esteja me traindo, eu não me lembro de, algum dia, ter dado uma resposta diferente desta: eu quero ser professora.

Eu nunca tive muitas ambições na vida e não sou o tipo de pessoa que sonha em realizar muitas coisas. Talvez por isso, eu não fiquei mudando os planos que eu tinha pra minha vida profissional ao longo dos anos e abracei durante boa parte da minha vida a certeza de que eu seria professora de Português.

Eu sempre gostei muito de ler e escrever, eu era ótima em ortografia e gramática e sempre tirei notas altíssimas na disciplina. Na minha limitada cabeça, não haveria outro caminho possível pra mim a não ser ir para uma sala de aula ensinar o que eu sabia.

Quem me conhece já sabe o que aconteceu na minha vida profissional. E quem não me conhece não vai precisar chegar até o fim deste texto pra saber que não, eu nunca concretizei o meu plano de ser professora.

Mas, acontece que entre eu responder a pergunta “o que você quer ser quando crescer?” pela primeira vez e sentar pra escrever este texto aqui, muita coisa aconteceu na minha vida profissional. E é sobre isso que eu quero falar hoje.

A escolha do curso superior

Como eu tinha certeza que seria professora de Português, não havia outra escolha de curso pra mim a não ser Letras. Essa era a faculdade que me daria o conhecimento e o diploma necessários para eu exercer a profissão que eu tinha escolhido.

No fim de 2005, quando me formei no ensino médio depois de mais de uma década estudando em escolas públicas, prestei vestibular para Letras em duas universidades federais, a UFMG e a UFV, em Viçosa.

Apesar de ter tirado excelentes notas na prova de Português e na redação, elas não foram suficientes para me garantir na segunda etapa do processo da UFMG. Se eu quisesse mesmo estudar lá, eu teria que esperar até o final de 2006 e prestar um novo vestibular.

No processo da Federal de Viçosa, eu fiquei em sexto lugar na lista de excedentes, mas a matrícula dos aprovados na primeira chamada só aconteceria dois meses depois da divulgação do resultado. Ou seja, seriam dois meses de espera para eu saber se entraria ou não no único curso que eu tinha imaginado pra minha vida de universitária.

Além da espera pelo resultado, eu precisava lidar com a possibilidade real de não ser aprovada e ter mesmo que aguardar até o fim de 2006 para seguir meus planos. Eu até estava disposta a esperar, mas meu pai não. Tivemos uma conversa em que ele sugeriu que eu me inscrevesse em alguma faculdade particular e cursasse os dois primeiros semestres, até que eu pudesse prestar o vestibular na federal novamente.

A ideia pareceu fazer muito sentido e eu comecei a buscar minhas opções. A essa altura do campeonato, janeiro de 2006 já estava terminando e a maior parte das faculdades de BH já tinha fechado as inscrições para o primeiro semestre do ano. Encontrei uma com inscrições abertas e que me oferecia uma felicíssima coincidência: o campus ficava a 450 metros do apartamento em que eu morava.

Só tinha um problema. A faculdade em questão não tinha o curso de Letras entre as suas ofertas. Diante do incômodo, meu e da família, de passar um ano inteiro só “esperando” a hora de prestar vestibular novamente, decidi escolher um dos cursos ofertados na tal faculdade, só mesmo pra passar meu tempo de forma mais produtiva.

Eu considerei o que eu gostava de fazer e as minhas habilidades e tentei escolher um curso que estivesse minimamente alinhado a isso. E foi assim que eu caí no Jornalismo.

Da falta de opção a uma escolha consciente

Comecei a cursar Jornalismo em fevereiro de 2006 e lembro exatamente do que vi, vivi e senti no meu primeiro dia de aula. Na tradicional apresentação de um novo curso, os alunos foram convidados a responder duas perguntas: “qual o seu nome?” e “por que você escolheu o Jornalismo?”.

Diante das histórias lindas de pessoas que queriam apresentar o Jornal Nacional, tinham planos de ser repórteres de grandes jornais ou revistas ou sempre tiveram certeza que jamais seriam outra coisa a não ser jornalistas, eu emudeci. Confesso que não lembro qual foi a minha resposta, mas eu duvido bastante que eu tenha exposto a minha história, que tinha muito mais a ver com fracassos do que com qualquer outra coisa.

Fato é que dei início ao curso, me confortando com a notícia de que aulas de Língua Portuguesa estavam previstas na grade do primeiro e do segundo período do curso. Por ora, isso era o suficiente pra me manter feliz por dois semestres, o tempo máximo que eu pretendia estudar ali.

Em meados de março de 2006, eu recebi a notícia pela qual eu esperei por muitos anos: eu tinha sido aprovada para o curso de Letras da UFV! Era o curso que eu sonhava, numa universidade de excelência inquestionável, que ficava a poucos quilômetros da minha cidade natal. E sabe o que aconteceu? Eu não quis ir!

Quando o resultado saiu, eu parei pra pensar em tudo que eu teria que abrir mão para realizar o meu sonho de cursar Letras: eu já tinha feito grandes amigos na faculdade, eu teria que enfrentar todas as dificuldades de morar fora de casa aos 17 anos, eu provavelmente perderia o namorado da época, eu teria que viver longe das minhas irmãs. E mais: em pouco mais de um mês, eu já tava curtindo muito o curso de Jornalismo!

Apesar de ter sido recriminada por muita gente na época, eu recebi o apoio dos meus pais na decisão e, realmente, acabei ficando em BH — eu sei que, no fundo, eles também não queriam ver a caçula longe de casa. Fiquei com a certeza de que a decisão não era uma mudança de planos, mas apenas um adiamento.

Eu entrei na faculdade muito nova e bastou uma conta matemática simples pra eu concluir que eu poderia me formar em Jornalismo, cursar Letras logo em seguida, emendar em um mestrado e, com 28 anos, ser Doutora, pronta pra dar aula em qualquer escola ou universidade do país. Foi mais fácil tomar a decisão de ficar sem precisar lidar com o fato de que eu estaria abrindo mão do meu sonho.

De toda forma, naquele momento, eu estava mesmo escolhendo o Jornalismo, o curso que, um mês antes, tinha caído na minha vida por falta de opção. Foram quatro anos deliciosos, de muitos aprendizados, de trocas com muita gente bacana e de muitas oportunidades pra fortalecer a minha certeza: eu não tinha a menor vocação e o menor desejo de apresentar o Jornal Nacional, nem de ser repórter de um grande jornal ou revista.

O que eu ia fazer com o diploma de jornalista, então? Isso eu decidiria depois! Além do mais, o curso de Letras e o desejo de ser professora seguiam firmes e fortes nos meus planos. E eu fui atrás deles!

Quatro anos depois, enfim o que eu planejei

Eu segui à risca os planos que eu tinha feito quando decidi ficar em BH e continuar cursando Jornalismo. Nos últimos meses do curso, junto com o sofrido processo do TCC, eu comecei a estudar para o vestibular.

No dia 8 de dezembro de 2009, três dias depois da última aula do Jornalismo, eu me vi na lista de aprovados na primeira etapa da UFMG. Foi um mês de muito estudo até a semana de provas da segunda etapa, preenchido pela minha animação por, finalmente, estar muito perto do que eu tinha passado a vida planejando.

No final de janeiro, o resultado saiu e meu nome estava lá: eu tinha sido aprovada para cursar o tão sonhado curso de Letras! Em fevereiro de 2010, um mês antes de colar grau e pegar o meu diploma de jornalista, eu passei a ser universitária de novo.

Eu sempre gostei muito de estudar e estar em sala de aula, especialmente numa universidade federal fazendo o curso que eu sempre sonhei, era algo que me dava muito prazer. Nunca vou esquecer da paz que eu sentia quando sentava no banquinho do jardim da Faculdade de Letras da UFMG e tomava consciência de tudo que eu estava realizando.

Fui apenas universitária por mais seis meses e em julho de 2010 fui convidada por um antigo professor (obrigada, Jornalismo!) a integrar a equipe da Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Belo Horizonte. Eu tinha certeza que eu não queria trabalhar em rádio, jornal ou TV, mas e assessoria? Poderia ser um caminho. E lá fui eu!

Nos primeiros semestres, eu conciliei muito bem o trabalho e a faculdade e, durante dois anos, eu saía de casa às 7h30 e voltava às 23h, feliz da vida. Eu estava fazendo o que eu queria e não havia cansaço capaz de me vencer!

Em julho de 2012, fui convidada a trabalhar em uma campanha eleitoral e, diante da oportunidade de ter uma experiência diferente, ganhando uma grana legal, eu não pensei duas vezes. Mas, ritmo de campanha é um negócio bem particular. Sem hora pra começar e parar de trabalhar durante três meses, eu precisei trancar a faculdade, porque eu não teria condições de frequentar as aulas.

Fiz isso sem peso na consciência e sem sofrimento, porque eu estava prestes a viver uma das experiências profissionais mais legais da minha carreira e porque eu tinha a tranquilidade de saber que o curso de Letras estaria ali, pronto pra me receber a qualquer momento que eu quisesse voltar.

Emendei a campanha em um novo convite profissional e assumi a chefia da assessoria de comunicação de uma secretaria de grande relevância no governo municipal. Diante do novo desafio, eu precisei trancar a faculdade por mais um semestre. Mas, o que seria um ano a mais nessa doce espera pelo diploma do curso de Letras, não é mesmo?

Em julho de 2013, eu mudei de emprego de novo, mas fui levando na mala o propósito de voltar pra faculdade naquele semestre. E foi o que eu fiz! Fazendo algumas aulas no turno da manhã, outras no turno da noite e intercalando um trabalho das 11h às 20h, eu estava, enfim, na metade final do meu tão sonhado curso de Letras.

Eu só não contava com a descoberta de uma certeza que, desde então, era uma completa desconhecida pra mim: a gente muda! Ao voltar pra faculdade, eu não era mais a mesma. Eu já era uma jornalista com mais de três anos de carreira, com muitas experiências no currículo, com um intercâmbio super massa na bagagem e eu simplesmente não conseguia mais me enxergar como autoridade máxima numa sala de aula.

Associado a isso, teve o fato de que o curso de Letras não era exatamente o que eu imaginava e foi a primeira prova que eu tive na vida de que a expectativa costuma ser muito melhor do que a realidade. Eu já tinha cursado cinco períodos e só bastava mais um ano e meio pra eu pegar meu diploma.

Mas, junto com a falta de tempo, a sobrecarga de uma jornada tripla e a decepção com o curso dos meus sonhos, veio a certeza de que, na verdade, eu gostava demais de trabalhar com Comunicação e estava muito realizada com a profissão que eu acabei escolhendo por acaso.

E foi assim que eu abri mão do curso de Letras e da resposta que eu havia sustentado por muito tempo pra pergunta “o que você quer ser quando crescer?”.

Não sou o que eu queria ser quando crescesse. Que bom!

Eu já perdi as contas de quantas vezes, ao longo da vida, eu ouvi as pessoas me dizerem que, mesmo desistindo do curso de Letras, eu não precisava desistir do desejo de ser professora. Eu não tenho dúvida que isso é verdade, mas fato é que à vontade de estar à frente de uma sala de aula deixou de ser, há alguns anos, uma verdade pra mim.

Hoje, eu tenho consciência de que eu sempre quis ser professora porque, pra mim, esse era o único caminho diante do meu amor pelo Português e da relação sempre tão íntima que eu tive com as palavras. E o melhor presente que o Jornalismo poderia ter me dado é a prova de que eu estava completamente enganada!

Na profissão que eu escolhi por acaso, eu me encontrei em diversas funções. Produção e edição de conteúdo, comunicação interna, marketing digital, planejamento de comunicação, comunicação corporativa, copywriting. Em 12 anos de carreira, eu trabalhei em empresas dos mais variados perfis e segmentos, eu assumi cargos importantes de liderança, eu me tornei especialista em comunicação digital e eu percebi que, mesmo já tendo crescido, eu ainda posso ser muitas coisas. Inclusive, de uns anos pra cá, passei a ser escritora — um título que ainda sai da minha boca com um certo receio de estar sendo prepotente, mas com um baita orgulho.

O Jornalismo e a Comunicação me deram experiências incríveis, amigos sensacionais (e um marido!), um nível de conhecimento absurdo e muitas histórias pra contar. Foi graças à área que conheci pessoas que transformaram e continuam transformando muito a minha vida! Eu tenho certeza que se seguisse pela profissão que eu tinha escolhido, não seria diferente. Mas, é muito gostoso saber que, todos os dias, eu sou capaz de encontrar felicidade no caminho que eu acabei optando por seguir.

A verdade é que, com o passar dos anos, a vida me ensinou que o sonho de ser professora era um sonho do meu “eu ideal”. O meu “eu real”, na verdade, só queria trabalhar com as palavras, transformando, de alguma forma, a vida das pessoas por meio delas. E ser feliz.

O meu “eu real” venceu e me provou que a gente pode admirar profundamente uma profissão e, ainda assim, não querer isso pra nossa vida. Tenho um respeito imenso e uma admiração indescritível pelos professores, mas sou muito, muito feliz sendo jornalista e atuando com comunicação e marketing — e amando cada dia mais a escrita, que é muito mais sobre o que eu sou do que sobre o que eu faço.

Essa é a verdade: eu não sou o que eu queria ser quando crescesse. E isso é o melhor que poderia ter me acontecido!

P.S: Esse texto foi inspirado no “Todo mundo tem um eu ideal”, episódio 78 do Para Dar Nome às Coisas, podcast idealizado, criado e conduzido pela jornalista Natália Souza. Ela, assim como eu, viu o “eu real” vencer o “eu ideal” e é muito feliz por isso!

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Jornalista de formação, acredito que a comunicação, muito mais do que prospectar clientes e fortalecer uma marca, tem poder de transformar a vida das pessoas.

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Rafa Baião

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