O mercado editorial acaba reproduzindo o discurso vazio da representatividade e, muitas vezes, utiliza o rótulo de literatura feminina apenas para cumprir um papel social

Literatura feminina: por que você precisa incluir mais mulheres na sua lista de leituras

“(…) quando se põe a escrever um romance, uma mulher constata que está querendo incessantemente alterar os valores estabelecidos — querendo tornar sério o que parece insignificante a um homem, e banal o que para ele é importante (…)”

Autora da frase acima, a britânica Virginia Woolf foi uma das duas únicas mulheres citadas na lista elaborada pela Folha de São Paulo, em 1999, que apontava os cem romances mais importantes do século XX. Ela era, de fato, um destaque entre tantos homens talentosos ou a citação de seu nome foi fruto de sua insistência em lutar contra paradigmas do mercado editorial da época?

Sabemos que, por muito tempo, o impacto de pressões socioculturais para as mulheres dedicarem-se apenas à família e à casa fez com que sua produção literária fosse numericamente inferior à dos homens. No entanto, isso pode ter contribuído para gerar um ambiente que naturaliza o privilégio de um padrão de qualidade relacionado com a produção textual masculina. Se os homens escrevem mais, proporcionalmente tendem a se destacar mais, certo? Até pode fazer sentido, mas não deveria!

No post de hoje, me proponho a apresentar dados e observações importantes sobre a literatura feminina e a te incentivar a refletir sobre a importância de incluir mais mulheres na sua lista de leituras. Acompanhe!

A desigualdade nos prêmios literários

É preciso ter em mente que hoje, mais de 20 anos depois da citada lista da Folha de São Paulo, o cenário não é muito diferente, haja vista os prêmios literários de grande visibilidade que, até os tempos atuais, têm uma baixíssima taxa de participação de autoras. O Nobel de Literatura, por exemplo, premiou, desde que foi criado em 1901, 100 homens e 14 mulheres.

A realidade é que paradigmas do século passado ainda assombram as escritoras que encontram no desigual cenário do mercado editorial barreiras para avançarem em sua trajetória literária. Em entrevista ao portal de conteúdo Vice, que integra o maior grupo de mídia global do mundo focado em jovens, a escritora cearense Jarid Arraes deixa muito claro as consequências dessa desigualdade.

“Ninguém me disse diretamente ‘você não pode ser escritora’, mas se eu só encontrava livros escritos por homens, como eu poderia pensar diferente?”, questiona ela. Mesmo sendo autora de mais de 60 títulos de literatura de cordel, Jarid destaca que os paradigmas que impedem ou dificultam a literatura feminina de prosperar continuam existindo. “Ser escritora no Brasil é lutar contra monstros que continuam vivos desde a época da colonização e que mudam suas roupinhas para ganharem uma aparência menos severa, mas continuam fortes e extremamente cínicos”.

As alternativas que quebram os paradigmas

Em meio a tanto preconceito e desigualdade em relação à literatura feminina, nascem iniciativas que representam um passo em direção à reversão desse cenário. O projeto Leia Mulheres, por exemplo, foi criado em 2014, com o intuito de incentivar a leitura de obras escritas por mulheres. A proposta inclui a criação de clubes do livro em diversos lugares do Brasil e conta com parcerias com editoras, livrarias e outras instituições.

Outra iniciativa que vale a pena acompanhar é o projeto Margens, coordenado pela jornalista Jéssica Balbino. Trata-se de uma plataforma que mapeia escritoras brasileiras que vivem nas periferias do país, atuando, portanto, não só na disparidade de gêneros na literatura, como nos impactos da desigualdade social no mercado editorial. O site reúne textos e informações sobre o universo das escritoras marginais, unindo e empoderando mulheres de diversas regiões do país.

Não há dúvidas que a literatura de autoria feminina, publicada em maior volume à medida que o feminismo foi conferindo à mulher o direito de se expressar, tem a missão de trazer outros olhares, posicionados a partir de outras perspectivas. Projeto como esses são fundamentais para a mudança desse cenário, mas a necessidade de eles existirem comprovam o tamanho da desigualdade enfrentada pelas mulheres no mundo literário.

Outro paradigma que precisa ser quebrado refere-se à temática da literatura feminina. Ainda há convenções por aí pregando que mulheres escrevem só para mulheres, se atendo apenas a questões feministas em suas obras. Um pensamento como esse carrega um preconceito tão absurdo que, acredito, dispensa qualquer comentário.

E é no meio de todo esse contexto que surge uma pergunta: se não são valorizadas o suficiente nem mesmo pelo mercado editorial, como as mulheres vão conquistar os leitores?

O papel do leitor na valorização da literatura feminina

O feminismo e o empoderamento das mulheres têm sido temas cada vez mais discutidos. Apesar de essa ser uma medida extremamente necessária, o que notamos é que a urgência de inserir mulheres em qualquer espaço em prol da busca pela “representatividade”, muitas vezes, acaba se tornando um argumento publicitário cheio de vontade de vender e bem vazio de um verdadeiro propósito.

O mercado editorial, muitas vezes, acaba reproduzindo essa máxima, utilizando o rótulo de literatura feminina como o cumprimento de um papel social a esvaziando o discurso de valorização da produção literária de mulheres, resumindo-se apenas a discussões pontuais em feiras e outros eventos literários. E é aí que entra o papel do leitor.

Se o mercado editorial não contribui para reverter esse cenário, é preciso trilhar o caminho inverso, com os leitores incentivando a literatura feminina e, assim, estimulando a publicação de obras escritas por mulheres. Não tenho dúvida que trazer mais mulheres para as nossas prateleiras e para as nossas listas de leitura é a melhor forma de quebrar o status quo e jogar luz sobre a importância da igualdade e da diversidade no mundo da literatura.

Trazer mais mulheres para nossas prateleiras e listas de leitura é a melhor forma de quebrar o status quo e jogar luz sobre a importância da igualdade e da diversidade no mundo da literatura

Graças à internet, escritores têm deixado de ser reféns do mercado editorial para publicar seus textos, afinal, no mundo virtual, existem inúmeras possibilidades de divulgar um projeto literário, de forma autônoma e independente. O Medium, por exemplo, é uma ferramenta utilizada por muitos escritores independentes para a publicação do seu trabalho e vale a pena dar uma navegada por aqui para conhecer novas escritoras e consumir os conteúdos produzidos por elas.

Em breve, vou publicar um post com sugestões de escritoras que podem ser lidas nessa busca pela valorização da literatura feminina, compartilhando, inclusive, as autoras que são as grandes fontes de inspiração para o meu processo de escrita. Enquanto isso, que tal você indicar outros projetos que tratam de obras escritas por mulheres ou compartilhar suas escritoras favoritas? Vai ser ótimo trocar essa ideia com você!

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Jornalista de formação, acredito que a comunicação, muito mais do que prospectar clientes e fortalecer uma marca, tem poder de transformar a vida das pessoas.

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Rafa Baião

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